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Oct 242013
 

REVISTA NIRAM ART – MADRID

Ponencia presentada en el marco de la inauguración de la exposición: Arte y Problemas de Salud Mental
Curador: Dr. Álvaro Lobato de Faria – Director Coordenador do MAC – Movimento Arte Contemporânea

A defesa e promoção de actividades relacionadas com a utilização de recursos artísticos nos serviços de saúde mental encontra-se, desde longa data, em consonância com uma das directrizes fundacionais do MAC – Movimento Arte Contemporânea, que se traduz na utilização do processo criativo como exercício subjectivo para o encorajamento e construção de novas éticas e estéticas de existência.

Enquanto Director-Coordenador desta instituição de promoção cultural, foi com enorme prazer que abracei este projecto a convite do Dr. Álvaro Andrade de Carvalho, Director do Programa Nacional para a Saúde Mental, que desde já saúdo por mais esta iniciativa que visa, acima de tudo, a “defesa do direito à livre expressão artística”, permitindo-se questionar, e até mesmo romper, com as visões estigmatizadas das pessoas com doença mental, fomentando a sua inclusão e autonomia.

Contrariando o modelo baseado no alienismo e no enclausuramento das pessoas com doença mental, a valorização das competências artísticas dos portadores destas doenças que tem vindo a ser efectuada pelo Programa Nacional para a Saúde Mental, e que envolve a luta e a dedicação de muitos intervenientes, evolui pelo esforço comum de humanizar os tratamentos e pela defesa de um conceito de saúde como direito humano fundamental, que ultrapassa a ideia simplista da ausência de doenças, afirmando-se antes como componente primordial da qualidade de vida, da qual o livre acesso à arte é indissociável.

Numa sociedade que tem a necessidade de criar padrões, todos os que assumem uma configuração de diferença, acabam por se tornar incompreendidos, assustam, ameaçam os valores de “normalidade” instituídos. Este facto, em muito tem contribuído para o isolamento das pessoas com doenças mentais como forma de protecção da restante esfera social. Mas apesar deste medo ampliado, permitam-me afirmar que a arte é esse espaço onde o são e o insano se conjugam, se confundem, se reconciliam, com total liberdade e legitimidade.

A inclusão da arte como terapêutica alternativa no contexto da saúde mental, tem vindo a traçar as linhas de novos e deslizantes territórios, de contornos ainda indefinidos, onde as categorias tradicionalmente utilizadas pelos padrões críticos ou estéticos anteriormente forjados não encontram oportunidade.

A associação entre as perturbações mentais e a produção artística faz parte da história da humanidade, ganhando relevância no final do séxulo XIX e atingindo especial destaque em 1945, data em que o pintor francês Jean Dubuffet realçou esta pureza do impulso artístico através do termo «Arte Bruta», referindo-se à arte pura, natural, versão livre da figuração psicológica que transcende ou ignora a diferença entre as frágeis fronteiras da sanidade e da inconsciência, que pouco ou nada deve à arte convencional e aos clichés culturais, voltada antes para a integridade do ser existencial.

Produzida por criadores anónimos, espíritos exilados e arredados dos circuitos artísticos profissionais, logo, livres de qualquer influência de estilos oficiais ou imposições de mercado, a Arte Bruta, mais do que um fim, é um meio, que utiliza as emoções mais profundas como utensílios de trabalho.

Para compreender toda a extensão e complexidade das reflexões e afirmações estéticas que estes artistas propõem, haveria que encontrar e inventar outras categorias e modelos interpretativos, bem como outros horizontes de entendimento crítico, histórico, estético ou sociológico.

Fortalecendo e valorizando a diversidade por via de distintas linguagens e abordagens que visaram a inclusão, a desconstrução de preconceitos, o incentivo à tolerância e o respeito pela diferença, os teóricos da Arte Bruta insistem em defender que aqueles que passam pelo grande sofrimento do rompimento com a realidade, do mergulho sem protecção nos abismos do inconsciente, podem, por meio da expressão artística, buscar o caminho de volta para a superfície, e ainda que ameacem destruir a comunicação comum, possibilitam uma comunicação outra, mais genuína, mais directamente relacionada com as fontes de criatividade do que a arte tradicional conscientemente produzida. Ainda que possa existir um corte de comunicação com o mundo, não existe um corte de comunicação com o outro.

Injustamente ignorada, criada em condições muito particulares de silêncio e solidão, existe então esta arte anónima, inconsciente do seu próprio nome e das suas potencialidades, nomeadamente, da sua espontâneadade e autenticidade expressiva.

Frequentemente denominada de primitiva, virgem ou crua, esta arte reivindica que a liberdade da criação é infinita e assiste por direito a qualquer homem, com ou sem formação específica, detentor ou não de condicionalismos físicos ou psíquicos.

Por alguma razão, determinados criadores, habitantes de mundos paralelos, escapam do conformismo social e dos condicionamentos culturais institucionalizados. Nos domínios da pintura, da escultura ou da fotografia, estes artistas de invulgar sensibilidade, afirmam um discurso original, e através dos distintos elementos das suas caligrafias pictóricas ou escultóricas, multiplicam os diálogos paradoxais da condição humana.

Ludibriando a razão, desvalorizam as hipóteses de sentido, de finalidade e de resposta aos “porquês” que o socialmente aceite tanto insiste em colocar. Perante as suas obras, a única realidade é a da sua própria imaginação, mais dependente de um qualquer estado de espírito do que de qualquer estilo específico, cultivando apenas a crença de que a emoção, a visão interior, é tão ou mais importante que o mundo concreto.

Seres dotados, detêm uma vontade livre e em virtude desta liberdade contornam as características fixas e reguladoras e exprimem um mundo só seu, um mundo que é a reflexão desse complexo de instintos e pensamentos, sentimentos e emoções, a que chamamos personalidade.

Marginalizados ou exclusos, mantêm-se salutarmente inconscientes das tradições académicas ou das modas vanguardistas, são indiferentes às críticas e, maioritariamente, únicos destinatários das próprias obras.

Deserdados da sociedade, agem por instinto, por estados, dores ou delírios de alma – complexos, intrincados e intensos –, mas falam uma linguagem primordial, um léxico que recorre a vocábulos puros e acessíveis a todos, e a sua imperiosa necessidade de expressão enobrece qualquer forma, seja qual for o tipo de suporte, o tipo de matéria, o tipo de processo para alcançar um resultado.

Fosse aquilo que eles fazem igual àquilo que todos fazem e ser-nos-ia totalmente desnecessário continuar a assinalá-los, a relembrá-los, a homenageá-los. Acontece, porém, que toda a herança estética que nos legam, é necessária precisamente porque nos impede de descansar em cima de conceitos e valores estandardizados ou canonicamente correctos.

Falar da obra destes estes artistas que não sabem que o são, é falar do sonho, logo, não pode ser racionalmente explicável em prejuízo de perder metade do sentido pelo caminho.

Aceitando a ruptura entre razão e imaginação, tornamo-nos capazes de validar esse reino imaginário que nos é estranhamente sinistro, cheio de incongruências que nos perturbam mas, no limite, nos fascinam. Pelo contrário, se ambicionarmos dissecar este universo, teremos de tecer complicadas considerações racionais no intuito de explicar coisas que só os sentidos entendem à primeira. Há em cada pormenor saído das mãos destes pintores, escultores ou fotógrafos, um elemento mágico que reclama a nossa atenção.

Ao serem reconhecidos publicamente como artistas, estes criadores são capturados pela rede cultural e incluídos na sua órbita, depois de terem vivido um período de exclusão. Neste sentido, a valorização da auto-estima que a arte possibilita aos portadores de doenças mentais é significativa da reorganização psíquica e da reinserção social que a partir deste processo se potencia, exteriorizando e exorcizando a condição de passividade e incapacidade erróneamente associada à doença mental.

Crendo que é condição de qualquer fruidor de obras de arte uma alma de explorador, não poderia, ao longo da minha carreira de galerista, comissário e curador de arte contemporânea, deixar de ficar indiferente a estes mundos desconhecidos, verdadeiros tesouros muitas vezes confundidos com delírios e alucinações, mas bem reais para as pessoas com doença mental. E não será que o delírio e a alucinação provêm do mesmo impulso libertador e catártico a que chamamos inspiração?

A imprecisão das distintas definições de arte que conhecemos, acontece porque em todas elas se considera como objectivo da arte a obtenção de prazer estético e não o seu propósito na vida da humanidade. E é bem provável que a arte seja indefinível e que o eterno debate em torno das suas características particulares seja inglório, mas de uma coisa estou certo, alcançar a essência da arte passa por deixar de olhar para ela como um veículo de prazer hedonista e analisá-la como uma das condições de bem estar da vida humana.

Assim considerada, a arte é por excelência um meio de comunhão entre as pessoas. Todas as pessoas. A experiência estética da criação que é hoje utilizada como forma de expressão e comunicação pelos portadores de doenças mentais, pode e deve, então, ser rentabilizada no sentido de criar novos territórios de acção que ultrapassem a simples função terapêutica, proporcionando o enriquecimento dos reportórios da subjectividade expressiva.

Qualquer obra de arte faz o fruidor entrar em comunhão com aquele que a criou e, simultaneamente, com todos aqueles que antes ou depois dele tiveram ou terão a mesma impressão artística. A particularidade deste meio de comunicação, distinto da comunicação por via da palavra, consiste no facto de que pela palavra a pessoa transmite a outra os seus pensamentos, enquanto pela arte, a pessoa transmite a outra as suas emoções e sentimentos mais profundos e ocultos, o seu labirinto de significações, o espelho da sua alma.

A função primordial da arte é então baseada no facto do homem que recebe a expressão de outro homem ser capaz de experimentar o mesmo sentimento que aquele experimentou e expressou por sinais, formas, linhas ou cores. Ora, é nesta capacidade das pessoas serem contagiadas pelos sentimentos de outras pessoas que a terapia pela arte surge como derradeira intermediária das relações sociais.

A verdadeira arte é a expressão imaginativa da emoção, da experiência mágica de comungar o sentimento do outro, que aposta numa certa visão das coisas que é própria das crianças e talvez de certos adultos, cada vez mais raros, que não são mitigados por quaisquer experiências “adequadas” e que mantêm viva essa qualidade infantil de um olhar que ainda não foi distorcido pela influência do pensamento racional ou dedutivo, um olhar que aceita a correlação das incompatibilidades, a auto-suficiência das imagens que, pelo acto da intuição poética, se constituem mistérios que ultrapassam a nossa faculdade lógica.

A arte produzida por pessoas com doença mental, hoje merecidamente aqui glorificada, evita, por definição, os olhares alheios dos públicos das galerias ou dos museus, não reivindica estatutos ou legitimações, antes transgride as normas da “arte estabelecida”, sendo a sua única preocupação a de criar, a de comunicar diálogos interiores que necessitam ser exteriorizados. Porque de todas as formas humanas, a única que não oprime é a arte.

A acção destes artistas não cabe em compêndios nem em enciclopédias. Na sua ambição pueril, têm-se isolado para se encontrarem a sós consigo mesmos, num diálogo comprometido com as pulsões do subconsciente que por vezes só eles entendem, mas que generosamente doam aos outros homens.

A utilização de recursos artísticos como possibilidades terapêuticas alternativas, enfatiza, a meu ver, não só o carácter multifacetado da saúde, que engloba o bem estar físico, o bem estar psíquico e o bem estar social, mas também a defesa da diversidade humana, que tem de ser aceite e valorizada como uma virtude e não como um defeito.

Na arte como na vida, conviver com a diferença é uma necessidade vital que nos distingue como seres humanos, e nunca o mundo necessitou tanto dessa convivência e aceitação como nos dias de hoje.

Porque as pessoas são pessoas, não são doenças, os sentimentos dos autores que hoje aqui homenageamos, variadíssimos, fortes, significantes, conscientes ou inconscientes, contagiam os fruidores da mesma maneira que contagiaram os seus criadores, constituindo-se as suas emoções as matérias moldáveis da arte.

É na substância dos sentimentos que estes artistas encontram os seus significantes mais próximos e, através deles, empreendem a travessia da plasticidade, viagem de lá para cá, num percurso de significação e transmutação da sua “realidade sonhada”, aqui e além atravessada por um rasgão, um grito de alerta, como que a dizer: – Eu estou aqui! Também eu tenho o direito de aqui estar!