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Feb 092011
 

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Perplexidades e dinamismos dum olhar fecundo

É ambição do artista encontrar uma linguagem pessoal para se exprimir.

Esta questão nunca se colocou para Teresa Ribeiro, pintora que recusa a fácil, plácida e estéril auto-satisfação de quem julga ter um domínio perfeito do seu ofício, limitando-se por isso a repetir fórmulas e aplicar técnicas de modo mecânico. Neste caso, a arte previsível encontra-se exilada.

Em mais de vinte anos de actividade, cerca de uma dezena de ciclos têm vindo a suceder-se um atrás do outro. Por vezes germinam lado a lado, mas não raro acontecem como que por rupturas bruscas, seguindo-se uma destruição repentina a uma longa gestação. Porém, convém desconfiar das aparências.

Da destruição aparente, surge então um novo ciclo, que parece tomar as devidas distâncias do seu antecessor, numa ânsia febril de desafiar as metas atingidas e os limites conhecidos, para experimentar novos caminhos, procurar novas formas e equilíbrios, arrancando-os, entre o fascínio e a repulsa, do abismo informe que antecede o momento criador.

A sedução da procura revela-se como sendo a própria essência da pintura de Teresa Ribeiro. Para além da eloquência da obra, para dissipar as dúvidas bastaria ler os nomes das suas exposições e dos seus quadros, que apontam sempre e inequivocamente, especialmente quando lidos como um todo, para um caos do qual é urgente fazer surgir a ordem, um espanto imperioso perante os enigmas da criação e da vida, uma alegria genuína perante cada nova e inesperada descoberta, uma interrogação permanente e insatisfeita… E o que as palavras calam, as cores e as formas comunicam.

Pintar, para Teresa Ribeiro, é um acto afirmativo, em que as várias instâncias criativas convivem simultaneamente: revolta e aceitação existencial, questionamento e pacificação filosófica, jogo excitante e trabalho árduo. E é também momento solene de investigação estética. Da tapeçaria à tela, da tela ao papel, texturas e nervuras, cheios e vazios, vigor e suavidade, dureza e ternura, linhas e formas, conseguem expressar-se e atingir um rigor e uma elegância formal requintados. As rupturas bruscas definem-se então, na verdade, mostrando uma continuidade feita de pequenos sinais quase imperceptíveis, minúsculos germes destinados a transformarem-se em criaturas e criações por vezes poderosas ou fantasmáticas. Rostos que espreitam, memórias antigas, sugestões de fugas, figurações alusivas, fardos vindos de tempos ancestrais, sonhos de voos, imaginações indistintas, geometrias planas e volumes insinuantes, gestualismo solto ou rasgado, trajectos que fluem e que de repente estacam e mudam de rumo… porque há sempre mundos antes impensados para explorar.

E assim chegam os Ecos e ressonâncias. Mas enquanto nós os vemos, para a sua criadora talvez eles já lá não estejam. O olhar dela tem outros horizontes. Poderemos colhê-los, um dia, quando estiverem maduros. Aqui os aguardamos.

Sebastiana Fadda