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Sep 082008
 

«O que fizeram Mallarmé e Joyce nas letras, Cézanne e o movimento de Montparnasse na pintura, Satie e os de Arcueil na música, Jeanes, Heisenberg e Einstein nas matemáticas e filosofia, Brâncusi fê-lo na escultura.»

V.G. Paleolog, Brâncusi-Brâncusi, Scrisul Românesc, Craiova, 1976

por Dan Caragea / Revista Agero, Folheto Exposiçao ICR Lisboa

A arte plástica de Romeo Niram é, antes de mais, uma provocação. O seu público deverá ultrapassar os limites compreensivos e a perplexidade „repulsiva” que a presença dos retratos de algumas personalidades, mas também de contemporâneos e íntimos do artista pode provocar. (Vejo-me olhando para mim em um dos quadros chave da exposição e não consigo solucionar convenientemente a ideia de ser olhado e reconhecido). Por isso, a saída lúcida desta armadilha afectiva só pode fazer-se malgré le public.

Não consigo determinar por enquento o número daqueles que iram manifestar um verdadeiro interesse por esta nova e intrigante visão artística. No obstante, gostaria de dizer que as minhas meditações sobre a arte de Romeo Niram me conduziram a descobertas realmente inesperadas, partindo de um entendimento holográfico da sua obra. E isto porque existe em Niram uma ordem desenvolvida e uma ordem envolvida nas suas telas: o todo encontrar-se em fragmento tal como o tempo se concentra no momento.

Romeo Niram situa-se entre os muito poucos artistas de hoje que decidem um caminho original, trazendo problemas „duros” no espaço das artes plásticas.

O primeiro destes problemas (histórico) seria o regresso à sabedoria, à lição, tal como acontecia na pintura europeia antes do Renascimento, dominada por aquele trágico confronto entre consciência crítica e existência trágica.

O segundo problema (formal) estaria ligado à tentação da loucura, a uma profusão dos sentidos, a uma rede de significações que arrisca a perder a figura, devido a um excesso referencial, e que implica um olhar mediado paciente, de estudioso.

O terceiro problema (epistemológico) estaria ligado ao recurso à ciência, e cujos “ciclos” são, na minha opinião, a consciência («Ensaio sobre Não Lucidez»), o outro («Simbioses», «Humanografia»), a humanidade («Ensaio sobre Lucidez») e o Universo («Brâncu?i: E = mc2»).

Vou insistir apenas sobre o último tema/tentação desta exposição.

Niram aproxima, inverosimilmente para leigos, a teoria da relatividade geral do nascimento da escultura moderna, Einstein (e sucessores: Lemaître, Gamow, David Bohm) de Brâncu?i, no sentido da teoria cosmológica do Princípio do Mundo e dos conceitos subjacentes: tempo-espaço, matéria-energia. A forma geométrica deste começo parece ser, na visão de Niram, a esfera (k=+1), o ovóide, para assim dizer (o ovo continente e contido).

É, sem dúvida, necessária uma preparação mais demorada da parte do espectador, a insistência nos pormenores, para que ele se aproxime convenientemente das „soluções” do pintor aos problemas acima referidos.

Aqui e agora ordenámos apenas as direcções para as quais nos leva o pensamento, não podendo ocultar as implicações maiores desta provocação, por mais desnorteante que esta se revele ao olhos do público preguiçoso.

Niram surge, apesar da sensação de espanto e das polémicas que iram surgir, como um novo marco na arte contemporânea, no horizonte demasiado vasto e crítico do pós-modernismo.

Cogitemos em conjunto: não poderiam ser as nossas representações cerebrais (cuja abordagem faz-nos descer até Plotin), tal como sugere o neurólogo Karl Pribram, um certo estado do Universo?