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Sep 082007
 

Crónica por CATALIN GHITA

Publicada en Revista AGERO

Pinturas: Ensayo sobre la Lucidez por Romeo Niram

En 1968, el célebre dramaturgo francés de origen rumano, Eugène Ionesco, publicó una confesión extraña, escrita en un estilo abrupto y fragmentario, que titulaba Journal en Miettes. Se trataba en el fondo de una de un intento de auto-análisis realizado en exilio, pero solicitaba al lector un esfuerzo intelectual considerable, para poder llenar los intersticios dejados intencionalmente descubiertos en el texto(intencionalmente). Mutatis mutandis, un emprendimiento similar a éste, pero basado en un material mucho más concreto, del dominio de las artes plásticas, pertenece al joven pintor Romeo Niram (nacido en Bucarest pero viviendo en Portugal).

De esta manera, la secuencia de los cuatro trabajos que quiero presentar concisamente en continuación puede ser mejor interpretada, desde mi punto de vista, comenzando por la figura central del artista en busca permanente de su propia identidad. Romeo Niram se siente seducido, por un lado, por una poética postmoderna de la fragmentación, de la representación fracturada de de su propio yo; por otro lado, el artista parece ser obcecado por la idea de la figuración del creador bajo la máscara de la alteridad, en otras palabras, de un retrato en la efigie del otro. Este otro es, sucesivamente, F.M. Dostoievsky, Luís de Camões, Fernando Pessoa y José Saramago, escritores con cuya obra el pintor tiene una relación privilegiada.

El primer retrato, él de Dostoievsky, constituye un poema plástico del artista como demiurgo: su mirada sobrepasa los contornos físicos de los objetos, penetrando en la intimidad de la conciencia. Es como si tuviéramos delante de nosotros una descripción fiel del interior de una pieza existencialista de Sartre, del tipo Huis clos: las puertas están cerradas, las paredes – en ruinas, el mobiliario casi inexistente. Se nos revela la tortura desnuda del alma, sin atenuación.

El segundo retrato, de Camões, evoca, en contrapunto, un espacio privilegiado, de un Portugal sublime, sobrellevado por la materialidad pesada del arco suntuoso y de la estatua ecuestre de la Plaza del Comercio. Se trata obviamente de un elogio al universo glorioso versificado por las Lusíadas, pero no sólo esto. En esta segunda representación, Romeo Niram construye sutilmente una puente entre el territorio íntimo del tormento estético (la repetición del tema del cuarto deteriorado del primer cuadro es constructivo en este sentido) y el exterior, extendido hasta abarcar la identidad de un pueblo entero. El artista, integrando en sí mismo la espiritualidad colectiva, se convierte en su símbolo.

Los últimos retratos, de Pessoa e de Saramago, se distancian de los primeros debido al abordaje técnico diferente. Tanto la realidad como la conciencia son fragmentadas y después reconstruidas en torno de las dos figuras tutelares, que también sufren un proceso de metamorfosis. Pessoa, poeta que se encuentra bajo el signo de las máscaras infinitas, y Saramago, el receptáculo de la memoria étnica, completan el (auto)retrato del artista en el momento de la suprema confesión. Las fracturas cromáticas, en dominantes de azul y color ladrillo sugieren el eterno conflicto espiritual – material.

Todavía más significativa es la inversión de la relación convencional celeste-telúrico, la superficie inferior del lienzo siendo pintada en azul mientras que la zona superior, que contiene los retratos propiamente dichos, en color ladrillo. Tampoco hay que olvidar que la porción de la base juega el papel de un espejo que no refleja fielmente, sino transfigura.

Nada dispuesto a compromisos y plenamente consciente, por lo que puedo intuir, de sus capacidades creativas, Romeo Niram nos ofrece una visión profunda sobre  como la literatura se puede conjugar con el medio elevado de las artes plásticas. A través  de los cuatro retratos, es la figura del propio pintor  la que se dibuja con fuerza como portadora de este estimulante mensaje estético. Romeo Niram cree poderosamente en la necesidad de la transferencia ontológica palabra-color, siendo exactamente en esto donde reside la esencia de su arte.


VERSAO PORTUGUESA:

Retratos em Migalhas

Publicado na revista Niram Art

Em 1968, o célebre dramaturgo francês de origem romena, Eugène Ionesco, publicou uma confissão estranha, escrita num estilo abrupto e fragmentário, que intitulava “Journal en Miettes”. Tratava-se no fundo de uma tentativa de auto-análise realizada em exílio, porém solicitava ao leitor um esforço intelectual considerável, para poder encher os interstícios deixados intencionalmente descobertos no texto. Mutatis mutandis, um empreendimento aparentado com este, mas baseado num material muito mais concreto, do domínio das artes plásticas, pertence ao jovem e dotado pintor romeno Romeo Niram (nascido em Bucareste mas vivendo em Portugal).

Desta maneira, a sequência dos quatro trabalhos que tenciono apresentar concisamente a seguir, pode ser melhor interpretada, do meu ponto de vista, começando pela figura central do artista em busca permanente da sua própria identidade. Romeo Niram é seduzido por um lado, por uma poética postmoderna da fragmentação, da representação fracturada de si próprio; por outro lado, o artista parece ser obcecado pela ideia da figuração do criador sob a máscara da alteridade, em outras palavras, de um retrato na efígie do outro. Este outro é, sucessivamente, F.M.Dostoievsky, Luís de Camões, Fernando Pessoa e José Saramago, escritores com cuja obra o pintor tem uma relação privilegiada.

O primeiro retrato, de Dostoievsky, constitui um poema plástico do artista como demiurgo: o seu olhar ultrapassa os contornos físicos dos objectos, penetrando na intimidade da consciência. É como se tivessemos na nossa frente uma descrição fiel do interior de uma peça existencialista de Sartre, do tipo Huis clos: as portas estão trancadas, as paredes – em ruínas, a mobília quase inexistente. É-nos revelada a tortura nua da alma, sem atenuação. O segundo retrato, de Camões, evoca, em contraponto, um espaço privilegiado, do Portugal sublime, sobrelevado pela materialidade pesada do arco sumptouso e da estátua equestre da Praça do Comércio. Trata-se obviamente de um elogio ao universo glorioso versificado pelas Lusíadas, mas não só. Nesta segunda representação Romeo Niram constrói subtilmente uma ponte entre o território íntimo do tormento estético (a repetição do tema do quarto deteriorado do primeiro quadro é edificante neste sentido) e o do exterior, estendido até abranger a identidade de um povo inteiro. O artista, integrando em si mesmo a espiritualidade colectiva, torna-se, como é o caso de Camões, no símbolo dela. Simultaneamente, a pintura pode ser interpretada também como uma homenagem feita por Romeo Niram ao seu país adoptivo, Portugal.

Os últimos retratos, de Pessoa e de Saramago, distanciam-se dos primeiros pela abordagem técnica diferente. Tanto a realidade como a consciência são fragmentadas e depois reconstruídas em torno das duas figuras tutelares, que também sofrem um processo de metamorfose. Pessoa, poeta que se encontra sob o signo das máscaras infinitas, e Saramago, o receptáculo da memória étnica, completam o (auto)retrato do artista no momento da suprema confissão. As fracturas cromáticas, em dominantes de azul e cor de tijolo, sugerem o eterno conflito espiritual – material.

Mais significativo ainda é o facto da relação convencional celeste-telúrico ficar invertida na visão de Romeo Niram, a superfície inferior da tela sendo pintada em azul enquanto a zona superior, que contem os retratos propriamente ditos, em cor de tijolo. Também não deve ser esquecido que a porção da base joga o papel de um espelho que não reflete fielmente mas transfigura.

Nada disposto a compromissos e plenamente consciente, pelo que eu posso intuir, das suas capacidades criativas, Romeo Niram oferece-nos uma visão profunda sobre o modo como a literatura se pode conjugar com o meio elevado das artes plásticas. Por intermédio dos quatro retratos, é a figura do próprio pintor que se desenha com força como portadora desta estimulante mensagem estética. Romeo Niram acredita fortemente na necessidade da transferência ontológica palavra-cor, sendo exactamente nisto que reside a essência da sua arte.