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Sep 082006
 

– Breve apresentação e história do quadro por Roxana Ghita

Publicado na Revista Niram Art N. 6 / 2006

Ao analisarmos o quadro “Ensaio sobre Fernando Pessoa” de Romeo Niram, deparámo-nos com a imagem de “um quadro dentro de um quadro”. Estamos perante aparentamente dois retratos, reunidos pela técnica pictural comum, mas diferenciados tanto pelo espaço de água azul que os separa, como pela simbologia escondida atrás cada um deles. O primeiro retrato é o de Fernando Pessoa, sendo a figura do poeta o que parece ter imposto a escolha da forma de fragmentação da figura humana. O porquê desta escolha reside na complexa personalidade do poeta, conhecido pela criação dos seus heterónimos (Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos), “resultado da tendência orgânica e constante do autor para a despersonalização e a simulação” (Mioara Caragea). No artigo “Pessoa: a Escritura Fragmentária”, um estudo sobre o “Livro do Desassossego”, Mioara Caragea aprofunda esta tendência para a fragmentação do poeta português, citando as palavras do próprio Fernando Pessoa (numa carta a Armando Cortes Rodrigues em 1914) sobre a fragmentação do livro em questão: “tudo é só fragmentos, fragmentos, fragmentos.” Transpondo em pintura estas palavras de Fernando Pessoa, Romeo Niram cria uma ligação estreita entre palavras e imagens, entre poesia e pintura, mediante as figuras fragmentadas, e também mediante a construção do próprio quadro, que também é fragmentado em dois.

Citando o escritor Catalin Ghita no estudo “Retratos em Migalhas(Revista Tomis, Agosto de 2006), podemos ir um pouco mais longe em busca de uma resposta à pergunta: “Porquê um retrato? E porquê Fernando Pessoa?”, entrando num terreno mais pessoal: “Romeo Niram é seduzido por um lado, por uma poética postmoderna da fragmentação, da representação fracturada de si próprio; por outro lado, o artista parece ser obcecado pela ideia da figuração do criador sob a máscara da alteridade, em outras palavras, de um retrato na efígie do outro.” Quem melhor que Fernando Pessoa, o “poeta que se encontra sob o signo das máscaras infinitas” (Catalin Ghita “Retratos em Migalhas”, Revista Tomis, Agosto de 2006) para dar voz a esta “obsessão” do pintor com a representação dele próprio na “efígie do outro”? Esta ideia de “um retrato na efígie do outro” leva-nos também ao segundo retrato do quadro, melhor dito ao segundo quadro. Muitos pintores, ao longo dos tempos, têm pintado retratos de amigos, familiares, ou inserido estas figuras em quadros de uma temática mais geral. Hoje em dia, ao analisarmos a obra de um pintor, damos mais importância e apresentam maior interesse as obras nas quais descobrimos figuras da vida pessoal do pintor. Os quadros que para o pintor tiveram uma implicação pessoal mais profunda prevalecem sobre os outros, como por exemplo os que foram feitos por encomendas. Muitas vezes, até nessas encomendas o pintor gostava de esconder o retrato de um amigo, da mulher ou dele próprio. Cabe-nos a nós hoje tentar desvendar estes mistérios e recompor, parte por parte, a vida pessoal do pintor e a personalidade dele. Em 1909, Amadeo Modigliani pinta, ao revés da tela “Estudo para o Violoncelista” o retrato do seu amigo, o escultor Constantin Brancusi. Hoje em dia, o revés da tela é mais famoso que a face, mostrando não só a amizade entre dois grandes artistas, mas também revelando-nos um pouco mais sobre a vida pessoal de Modigliani e sobre a sua personalidade. Através do retrato de Brancusi, é o próprio Modigliani que nos fala. Pintar um amigo é, para muitos pintores uma forma de ele próprio estar presente na tela e encontrámo-nos assim, não perante um retrato, mas perante um auto-retrato na “efígie do outro”.

Este “outro” é, para Romeo Niram, o seu amigo, o advogado José Preto. Através desta imagem de valor emocional, o pintor consegue pintar-se a si mesmo. Por intermédio deste retrato “é a figura do próprio pintor que se desenha com força como portadora desta estimulante mensagem estética” (Catalin Ghita).

O quadro “Ensaio sobre Fernando Pessoa“, com a sua mensagem de aproximação entre duas formas de arte diferentes, a literatura e a pintura, tem atraído o interesse nos meios culturais do país de origem do pintor. Várias revistas de cultura têm publicado artigos, estudos e fotografias sobre o ciclo “Ensaio sobre a Lucidez”: “Retratos em Migalhas” de Catalin Ghita revista Tomis, Constanta, Agosto de 2006, e Buletinul de Informatii, Australia, Setembro de 2006; “Romeo Niram: A Arte é a reconstrução do paraíso da infância”, entrevista, revista Sisif, Craiova, Setembro de 2006; “Romeo Niram ou sobre a Lucidez” em Egophobia, Nº 12, Bucareste, Agosto de 2006 e em Tomis, Constanta, Agosto de 2006; “O pintor Romeo Niram e o ciclo “Ensaio sobre a Lucidez” de Lora Haranaciu em Cultura, a revista da Fundação Cultural Romena, 03 de Agosto de 2006 e Origini, Madrid, Setembro de 2006, “Romeo Niram em busca do mistério femenino” em Blanca, Bucareste, Julho de 2006; Romeo Niram – A Pintura é o meu diário íntimo” de Eva Defeses, em Lumea Magazin, Nº. 17, Bucareste, Julho de 2006 e Observatorul, Toronto, Canadá, Maio de 2006.

A mensagem parece ser esta: não importa a forma de expressão que o homem escolhe, o que importa é a Arte e a sua universalidade. O Homem, perdido no labirinto da vida (evocado nas telas por estreitos corredores ladeados por altos blocos queimados ou incandescentes), encontra o seu refúgio de água azul e refrescante nas páginas de um livro, nos versos de uma poesia ou nas cores de uma pintura. “Afinal, como dizia Fernando Pessoa, a finalidade da arte é elevar.” (Lora Haranaciu, “ O pintor Romeo Niram e o ciclo “Ensaio sobre a Lucidez”, Revista Cultura, Fundação Cultural Romena, 03 de Agosto de 2006)